O amigo d’Eu

(pequena história introdutória)
Andava Eu descansadinho pela esfera, quando me aparece um animado rafeiro aos pulinhos. “Que bicho mais alegre (gay, para os leitores ingleses) e saltitão...” pensei “Vou segui-lo até à sua casota para ver se tem dono”. E lá fui, com o canito aos saltinhos à minha frente. Chegando lá, deparo não com um, mas com imensos donos e simpatizantes, que o alimentavam e acariciavam com inúmeras festas/chapadinhas no lombo e no cachaço. “Está servido, não vale a pena voltar aqui” disse para mim (Eu sou assim, falo muito comigo, salvo seja!) enquanto não resistia a deixar-lhe, também Eu, uma caríciazita.
A partir daí, ele voltou, Eu voltei, ele voltou, Eu voltei, ele voltou, Eu voltei (dá para ver a ideia, não é?). Sem querer, também Eu já era um dos que estava sempre na casota, e, mais que isso, até já começava a sentir uma certa simpatiazinha das pequenininhas. Bem, aproveitando-se disso, um dia destes quando Eu estava por lá distraído, o bicho alça a perna e deixa-me o pé humedecido e morno com uma coisa a que chamou “desafio”.

Ora, como Eu não podia recusar um “desafio” de alguém por quem tenho uma certa simpatiazinha das pequenininhas, é o resultado dessa minha satisfação (e espero que vossa) que aparecerá de seguida.


1 - ALTURA:
como diz a minha tia Odete, há alturas para tudo (mas a minha não é dessas) - um metro e setenta e poucochinho, para os que querem mesmo saber
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2 - QUE SAPATOS ESTÁS A USAR?
estou descalço (ainda bem que não cheira)
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3 - MEDO?
muito; tenho medo de tanta coisa que qualquer dia compro um cão ou arrebanho um rafeiro qualquer
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4 - OBJECTIVOS A ALCANÇAR:
as coisas banais como ir para o pé do rafeiro no blog do voyeur e fazer parte dos links do bigmac (o resto é mais estranho e tenho vergonha de dizer)
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5 - FRASE QUE MAIS USAS NO MESSENGER?
não é uma frase, é uma palavra - “pois” (pois, sou tão concordante que até chateia...)
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6 - MELHOR PARTE DO CORPO?
não há partes “melhores” nesta carcaça, tenho um autêntico corpo de rafeiro (acho que está tudo dito)
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7 - PALAVRÕES?
conheço alguns, sim senhor, mas guardo-os todos para confidenciar ao volante da viatura (quando estou sozinho a conduzir gosto de gritar aos velhinhos que se arrastam naqueles carrinhos em que não é preciso carta de condução “oh velho da pilinha, vai-te fecundar, oh atraiçoado pela tua mulher!)
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8 - LADO DA CAMA?
todos, menos o debaixo da
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9 - TOMAS BANHO TODOS OS DIAS?
todos os dias (em que tomo banho)
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10 - GOSTAS DE TOALHAS QUENTES?
mas que mariquice é essa? Se tiver uma toalha seca já me dou por contente...
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11 - URSINHOS DE PELÚCIA?
pelúcia? Logo vi que isto vinha do Brasil (já tinha desconfiado com a das tolhas quentes...); nunca tive (um rafeinho cor-de-rosa ainda ia, agora um ursinho...)
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12 - ACREDITAS EM TI MESMO?
tem dias, ás vezes pareço-me tão a sério que acredito
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13 - DÁS-TE BEM COM OS TEUS PAIS?
gosto mais de pensar que me dou a eles
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14 - GOSTAS DE TEMPESTADES?
só se redundarem num temporal de amor (“...quero ser a toalha e o seu cobertô-ôôôôôôô”; aaah! leandro e leonardo, essa pérolas)
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15 - DESPORTO?
Futebol (fui jogador federado pelo Ginásio Clube de Corroios) e todos os outros
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16 - PASSATEMPOS E HOBBIES?
quando não me emaranho na net, trabalho e gosto de apedrejar cães sem raça (vulgo, rafeiros)
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17 - FOBIAS E MANIAS?
porque não “Tobias e Azias”? mas vá lá, pronto – agulhas na veia e ter um blogue, respectivamente
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18 - QUANTAS VEZES O TEU NOME JÁ APARECEU NOS JORNAIS?
sei lá, não leio jornais, mas já deve ter aparecido (a cara já apareceu pela primeira vez decorria o ano de 1993 - depois de dois fracos futebolistas terem ido para o clube das riscas horizontais, falava-se que também rui costa poderia desertar; no jornal record apareceu o jovem jogador à saída de uma reunião em que jurou fidelidade ao seu clube de sempre – Eu sou o puto mais perto dele, com uma mochila às costas e lágrimas nos olhos)
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19 - CICATRIZES NO CORPO?
joelho direito, nuca e...língua (ah pois é)
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20 - DE QUE TE ARREPENDES DE TER FEITO?
ter seguido um certo rafeiro até à sua casota
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21 - COR FAVORITA?
vide perfil de Eu
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22 - UM LUGAR ONDE NUNCA ESTIVESTES E GOSTAVAS DE IR?
gostava de ir lá, nunca lá fui
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23 - MANHÃS OU NOITES?
noites (mas o dia tem mais partes que “tardes” e “noites”?)
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24 - O QUE TENS NOS BOLSOS?
nada, gosto de ter os bolsos livres para poder pôr lá as mãos (e coisas)
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25 - QUE FARIAS SE FOSSES PRIMEIRO-MINISTRO?
dissolvia o parlamento (com ácido sulfúrico) e convocava novas eleições (desta vez mais sérias, como é óbvio)
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26 - SE GANHASSES O EUROMILHÕES QUE FARIAS AO DINHEIRO?
gastava muito e guardava o resto em bancos
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27 - SE TE CAÍSSE NAS MÃOS A LÂMPADA DE ALADINO O QUE FARIAS? QUE DESEJOS PEDIRIAS?
depende, primeiro procurava o Aladino para lhe dar a lâmpada (não gosto de ficar com nada de quem saiba ser o dono), se não o encontrasse, não pedia desejos, desejava-os que os desejos não se pedem (a saber: não assistir ao fim do mundo; outra lâmpada do Aladino e que o Aladino continuasse desaparecido)
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28 - SE O MUNDO ACABASSE HOJE ÀS 23h59m QUE FARIAS ATÉ LÁ?
(está visto que o sacana do génio não ia atender aos mEus desejos)
abraçava os que amo e dizia-lhes isso até ao fim (sou querido ou não?)
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29 - SE TIVESSES UM FILHO SEM SABER COMO, SEM RAZÃO NENHUMA, QUE FARIAS?
Primeiro ia-me limpar e tratar (já assisti ao nascimento de filhos e aquilo não é fácil) depois abraçava-o até ao mundo acabar

(já acabou??? Então ficamos por aqui, que nesta coisa das correntes, Eu sou sempre o elo mais fraco)


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Mudando de assunto…

Depois do último texto onde, e vá-se lá a saber porquê, ficou nos fios da Internet a ideia que para mim tudo redunda em relações directas com sexo (não confundir com relações sexuais) e que Eu, de alguma maneira, desdenho a Mulher (com M capitulado) – teses insinuadas pelos comentários de algumas leitoras e de um canídeo, pasme-mo-nos! - manda o bom senso que o imediatismo deste texto enverede por um assunto relacionado com os passarinhos, com as flores ou com o azul do mar.

Só que aqui esse tal de “bom senso” não manda nada, e como tal vou desmascarar a sensualidade das máquinas de pagamento dos estacionamentos subterrâneos.

Eu já tinha visto homens – normalmente na casa dos “quarentas” – a delongarem a remoção da mão da ranhura de onde se retira o troco, enquanto, virando a face para o tecto com os olhos fechados e sorriso deleitado, movimentavam o braço languidamente para diante e para trás; ou outros de calças pelos tornozelos a abraçar a máquina exibindo frenéticos tremores pélvicos como se de rafeiros a acasalar se tratassem. Eu já tinha visto, mas nunca lhes liguei por aí além porque acho que não me devo meter muito na vida dos outros (principalmente dos que sentem atracção por máquinas de pagamento dos estacionamentos subterrâneos).

Só há pouco tempo reparei no que justifica tamanho aumento de testosterona ao ponto de forçar tais comportamentos: A máquina foi programada para seduzir sexualmente os utentes masculinos! Dá sinais por demais evidentes que pretende enlouquecer o pagante-homem de desejo. A ver:

Desde logo quase todas são vermelhas, pretas ou azuis (e todos nós sabemos o efeito que essas cores têm na hipófise masculina);

Em seguida basta reparar naquele movimento que ela faz com o talão de pagamento depois de saldada a multa. Não se limita a mandar aquilo cá para fora, não. Mostra, recolhe e torna a mostrar o cartão num processo provocatório semelhante ao que a mais astuta das meretrizes recorreria, agitando a língua como engodo de prazeres inesquecíveis.

Finalmente, despeja o troco lentamente e agradece desejando a volta rápida ou uma boa viagem, num olhar quase sempre verdejante e aceso.

Se isto não é sedução da mais traiçoeira, então não sei o que será. Aproveitam-se da fragilidade masculina para induzir comportamentos ridículos e paixões impossíveis.

Claro que uma mulher nunca cairia neste tipo de esparrelas. Só os homens são tão ingénuos. A elas falta-lhes este tipo de sensibilidade.
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Bem hajam e bem ajam


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pescadInha humilhada

Eu não faço ideia quem foi a pessoa que resolveu contorcer uma pequena pescada até esta ter o seu próprio rabo na boca, fritá-la e fazer disso um prato culinário, mas tal feito denota desde logo duas certezas insofismáveis:

Primeira, tratava-se de alguém que nunca teve as suas pretensões sexuais mais íntimas devidamente satisfeitas;

Segunda, era um alguém feminino.

Vamos ao primeiro ponto. O ímpeto de agarrar num peixe, que ainda nem sequer adultou, e humilhá-lo ao ponto de lhe enfiar a própria cauda na boca, indicia, desde logo, uma necessidade de vingança unicamente justificável pela frustração de estranhas e rebuscadas fantasias carnais não cumpridas. Quem, num estado emocional, digamos que, estável, ousaria humilhar uma cria piscícola daquela forma? Que tipo de gente faria isto a um peixinho e, talvez sorrindo, diria ”Olha, é um novo petisco, não é tão engraçado?”. E depois, como se não chegasse a posição confrangedora, ainda o envolve em farinha, mergulha-o em óleo a ferver e serve-o com um arroz a que chama de “malandrinho”. “Malandrinho”, haja descaramento!. É um comportamento mais retorcido que a própria pescada. Aliás, depois do nome estupidamente óbvio - convenhamos que chamar “pescada” a um peixe é o mesmo que chamar “apanhada” a uma fruta ou “Camila Parker-Bowles” a uma gaja feia - este simpático e dócil animal nunca mais deveria ser importunado pelo ser humano. Antes pelo contrário, deveria ser venerado e até elevado a símbolo de um qualquer acontecimento cultural tipo Exposição mundial ou Convénio dos antigos leitores da revista burda. Mas não. Não só lhe capturam os filhinhos, como ainda lhes infringem destratos sob o disfarce da criatividade culinária. Será que ninguém vê o sofrimento da pescada adulta? Basta olhar para aqueles olhos vazados com que se mostram nas bancas de venda; aquele encovamento, aquele brilho baço só mostra a tristeza com que o bicho anda a nadar lá na água salgada.

É preciso muito recalcamento libidinoso para desencantar uma destas. Mas mesmo um recalque dos repizadinhos, que nem uma orgia engendrada por Baco ou uma lobotomia dupla curaria. E, como ninguém lhe compreendia as necessidades, os vazios, foi a pobre pescadinha que pagou as favas (o arroz, no caso). Vai de variar a fritura. Toca a deixar de cozinhar a criatura na posição convencional – esticadinha – que representaria as limitações ao nível do desempenho lascivo, e vamos lá a maltratá-la e rebaixá-la até mais não. Aposto que gargalhando para dentro o resultado da sua malvadez.

Tenho poucas dúvidas que na conduta para com a pescadinha se reflecte toda uma carência erótica.

Em relação ao segundo ponto, só numa mulher se conseguiria agregar o misto de maldade, desejo de vingança, necessidade de humilhação e a capacidade de remoer frustrações, enunciado nos parágrafos anteriores. Só.

Em suma, Eu sinto-me realmente amargurado por não ver esta tremenda injustiça abraçada como uma causa dos defensores dos direitos dos animais, que compactuam – quiçá no prato – com tamanha pouca-vergonha. Parece, que tal como na Terra, também no mar uns são filhos da Mãe-Natureza e outros são enteados da (cha)puta.

Por mim, todas as pescadas e pescadinhas do planeta continuariam a nadar felizes e em família para todo o sempre. Como já alguém andou a insinuar por este meio, Eu nem gosto de me alimentar com elas (perdoem o contorno textual, mas se escrevesse “Eu não gosto de as comer” poderia suscitar pensamentos ou comentários mais malandrinhos que o arroz).


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Porque não destapar a careca?

O que levará um homem a tentar esconder a pele que o começa de cima para baixo? Eu não quero ofender ninguém, mas estes gajos que “tapam” (???) a calvície com longos fiapos de cabelo laterais andam a envergonhar toda História da espécie humana desde a altura em que evoluímos de Australopithecus para o género Homo.

Já é não é nada saudável uma pessoa deparar-se com um alguém que mostra a pele da cabeça mal dissimulada por entre uma mescla rarefeita de filamentos pilosos repuxados do lado e qualquer coisa com aspecto situado entre o líquido amniótico e a banha de porco, que o faz parecer mais lambido que um bezerro acabado de nascer e lavado pela salivosa língua da vaca-mãe.

Agora, quando vem uma aragem que descola aquela “pala” e a solta como às velas duma caravela em busca do caminho marítimo para o desconhecido, é de ir ao vómito! Fica ali a fímbria caída sobre a orelha ou - pior! – a abanar ao vento num vigoroso alerta ao mundo que ali em cima se encontra uma careca agora destapada e impoluta, mas outrora oprimida pela vontade de um dono que a menospreza e desprestigia com vestes ridículas e propósitos menos dignos. É coisa para me apagar todas as boas recordações do dia que fui acumulando até àquele momento.

Eu nem percebo o porquê de não assumir um sinal da idade. Ainda por cima de uma forma tão desastrosa e, digamos, ridícula. A ausência de cabelo não é vergonha nenhuma, e tão pouco anti-estético. Aliás, na conhecida escala do anti-esteticismo não há nada que seja mais anti que essa gosma de cabelos colados à cabeça. É até insultuoso! Acham o quê? Que não se percebe que são carecas, que o disfarce é perfeito? Mais depressa se põe em causa a homossexualidade do George Michael (esta vai direitinha a um “espreitador” deste mundo).

Não há que ter vergonha da pele que nos encima. Até dá um certo charme e deixa o miolo mais arejado. Nunca nenhum homem ficou à míngua por ser careca, acho Eu (agora apetecia-me pôr aqui um verso dessa música que toda a gente se está a lembrar, mas não o vou fazer por isso mesmo: toda a gente já se está a lembrar). Vejam o meu exemplo – há anos que destapo a cabeça propositadamente e isso não me impediu de sacar uma das mulheres mais valiosas que este mundo tem, e com a qual mantenho uma relação já longa e duradoira. Ser careca é um orgulho! É um estado de alma (quente ou frio, consoante o clima, já que não há a protecção dos cabelos).

E depois, ainda há aqueles que usam umas coisas artificiais que mais parecem bocados de um boi almiscarado que andou de rojo entalado no fundo dum camião TIR na viagem entre Badajoz e Vales Mortos. Mas desses Eu não vou falar, já me dói o gasganete do esforço que tenho feito até aqui para evitar a vomição.

Como o universo seria mais perfeito se este vício do camuflamento carecal fosse erradicado. Vou até mandar cartas às misses da América do Sul para que comecem a desejar isso, logo a seguir aos votos de paz no mundo e o fim da fome.

Bom fim de semana (poderá dar-se o caso de só voltar na quinta-feira, se assim for, desfrutem bem da minha ausência)

NR: se por acaso algum dos leitores tem este hábito, então está perdoado, já lhe chega a penitência de ser um leitor deste espaço, mas, de qualquer forma, deixe-se disso, acredite que é melhor para todos, si incluído.


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Beijo sanitário

Que o Amor encerra mistérios mais fundos que a garganta da dona Linda Lovelace, já toda a gente sabe e sentiu (os mistérios, não as proezas da Linda). Agora, a transversalidade com que certos comportamentos amorosos são mostrados é algo que me intriga ainda mais que a presença ou ausência da epiglote no corpo humano.

Um dos mais enigmáticos passa-se à porta dos sanitários públicos dos grandes centros comerciais.

Quem nunca efectuou o beijo de despedida pré-ida à casa de banho pública (ou, pelo menos, nunca constatou em tal prática) que atire a primeira coisa que tiver à mão, não precisa ser uma pedra.

É estranho, no mínimo. Estranho. É que, se repararmos bem, aqui o factor “público” assume toda a diferença. Sim porque, que Eu saiba, na privacidade do lar nenhum casal se despede antes de um deles ir-se aliviar à divisão sanitária. Nem em casa própria nem em domicílios alheios, pelo que tenho observado. Já nos centros comerciais a coisa muda de figura.

Não sei se será pela presença de uma multidão de desconhecidos que se acumula à entrada ou se a força motriz do ósculo é tão só a forte imagem estética das portas daqueles serviços, o que é certo é que não há casal que não dê o seu beijinho antes de um, ou ambos, desaparecerem no incógnito da retrete.

E isto é ainda mais surpreendente quando verificarmos que há gente que só mostra esta prática quando a separação se dá por causa do WC. Se for numa mera loja ou para ir buscar comer não há cá carinho. Para a casa de banho, sim! É outra história, é mais arriscado, talvez...
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Mas o que é que esta malta pensa? Que o outro terá uma experiência que o marcará para todo o sempre de forma a torná-lo noutra pessoa e, portanto, o melhor será despedir-se já daquele que é nesta altura o seu amor? Que lá dentro poderá haver uma sanita devoradora de gente? Que o simples facto de alguém voltar menos cheio de detritos internos fará com que o amor diminua? Estarão a despedir-se do que lá vai ficar dentro? Estarão, no fundo, a mostrar à sociedade que amam aquela outra pessoa mesmo sabendo que se trata de alguém que vai à casa de banho? Mesmo que essa casa de banho seja pública? Será, enfim, uma maneira de dizer ao outro “chonhinho/a, vai lá que a/o timbucha/o não se esquece de ti”?

Não entendo, sinceramente, que não. Já passei dias a matutar sobre isto, e não chego lá. Caíram-me cabelos e sobrancelhas, ganhei escoriações na nuca das cabeçadas que dei na parede (nota mental: tenho de mudar para tinta de água que a tinta de areia esfola logo ao primeiro encosto) insultei vizinhas, esmaguei formigas...mas não chego lá.

Se alguém tiver uma faísca que me ilumine, agradeço. Entretanto vou acender incenso de camomila e beber chá, pode ser que ajude.


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Lágrimas de sabedoria

Há muitos, muitos anos, era Eu uma criança, irrompi pela cozinha de surpresa, atraiçoando a solidão de minha mãe. Ouvi que ela fungava.

Acalmei a fúria infantil e aproximei-me calmamente da bancada de cozinha, onde ela, de pé, preparava aquilo que seria o jantar.

“Porque é que está a chorar, mãe?” perguntei Eu com toda a ternura das crianças

“Filho, quando fores mais velho e estiveres na cozinha, como eu estou agora, e os teus filhos fizerem essa mesma pergunta, aí perceberás...” disse ela com aquela ternura maior que a das crianças, enquanto levantava o rosto em direcção à luz do tecto.

“Está bem” respondi. Saí daqueles domínios e voltei à brincadeira, confiando, como sempre, nas palavras de minha mãe.

Hoje, passados os tais muitos, muitos anos, estava Eu na cozinha, de pé junto à bancada, e as lágrimas banhavam-me a cara. Nisto aparece a minha filha, talvez atraída pelo mesmo fungar que me fez aproximar de minha mãe naquele distante anoitecer, e sussurra-me:

“Estás a chorar porquê, pai?”, agarrando-me no braço com a ternura que as crianças já têm há muitos anos.

Lembrei-me da resposta de minha mãe e respondi “Daqui a muitos anos, quando estiveres na cozinha e a tua filha perguntar porque choras, então entenderás, filha”, ao mesmo tempo que elevava o rosto da mesma forma e tentava regar as palavras com uma meiguice parecida.

Porém, cá para dentro gritei “Deixa estar que quando começares a descascar cebolas vais logo perceber este choro, e lembrar-te-ás que já foste uma criança cuja ignorância própria da idade te levava a fazer perguntas imbecis. E nem é preciso teres filhos nem estares na cozinha de pé!”




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Alarvidade ao peso

Eu acredito piamente que, sem querer, foi descoberto um método de pesar um parâmetro do comportamento humano. E digo que foi sem querer porque me parece – ainda não tenho a certeza – que o propósito inerente à génese destes autênticos laboratórios comportamentais não seria a materialização em peso de uma conduta. Parece-me.

Refiro-me às casas que vendem comida ao peso. Ali, se repararmos bem, as balanças registam o peso da alarvidade numa relação directa com a arrumação do repasto.

Claro que nem todos os que se alimentam naquelas casas cabem na pele de um alarve. Nada disso. Agora, dos que simplesmente se servem do que vão comer até aqueles que pretendem ingerir numa refeição a ração da semana inteira, vai uns quilitos de alarvice.

E nem sequer quero tecer considerações acerca dos que comem muito por qualquer tipo de necessidade. Que isto é como tudo: cada qual deve comer o que quer e quanto quer (e onde quer, já agora). O que digo é que neste tipo de restaurantes é evocado o ser alarve que está escondidinho em cada um de nós. E nuns mais que noutros. Ou seja, a tentação de recolher mais para o prato que aquilo que alguma vez caberá no bucho. O ter uns olhos do tamanho da barriga para uma barriga do tamanho dos olhos.

Basta ver aquela comidanga toda ali à disposição do livre arbítrio do talher para as mãos começarem a tremerem de gana e a nascente da baba começar a brotar. Mesmo sem a fome constranger o estômago, lançamo-nos invariavelmente num “deixa cá provar desta coisa e mais um bocadinho disto e outro daquilo” que vai adindo peso à balança da alarvidade.

Ora, isto nem tem mal – para além dos custos extras da fruta ou do arroz ao preço do caviar - se for assumido, muito ou pouco. O que realmente deixa transparecer o exagero é aqueles casos em que a liberdade de escolha se torna numa libertinagem alimentar, e vai de atulhar o prato como se dum concurso de empilhamento de carnes, batatas, couves e afins se tratasse. Por vezes parece que ganha aquele que conseguir atingir o maior número de centímetros de géneros alimentícios encimados. Quase que juro que já os vi a segurarem o prato junto às ancas e a estabilizarem a comida com o queixo pela altura do pescoço.

É aqui que entra a alarvidade. A verdadeira.

Depois, para além de um “eh lá!” na altura de transformar a gula em dinheiro, é vê-los de todas as cores a atafulharem-se com aquilo que, já há muitas mastigações atrás, está a mais - no prato, nos olhos e depois na barriga.

Voltando ao início, é este comportamento que as balanças registam. Ou podiam registar discricionariamente. Bastava que para tanto se pesasse o resto da comida que fica no prato ou aquela que obriga a alterações da tonalidade da tez. Estava aqui um serviço jeitoso. À saída poderiam prestar esta informação «O senhor/a comeu 378 grs e a sua alarvidade pesa 3.74 kg. Volte sempre».



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“Bem vindos ao mundo encantado dos brinquedos…”

É verdade, depois de gerações e gerações, histórias e fábulas, e toneladas de imaginários de todas as cores, finalmente o país dos brinquedos é real, existe neste mundo. E não é no Continente, como esses intrujões ao serviço do consumo inconscientemente destravado andam para aí a anunciar.

Trata-se de uma terra longínqua, infinita, cheia de pequeninos operários todos iguais - cuja multiplicação faz inveja à raça dos coelhos – dragões e palácios coloridos.

Falo evidentemente da China, e quem duvidar desta realidade fantástica poderá agarrar num brinquedo ao calha - seja num hipermercado, numa feira cigana ou num armazém da especialidade – virá-lo de pantanas e procurar pela etiqueta técnica. Lá estará, abaixo do “não ingerir nem largar fogo ao coitadinho do brinquedo”, a origem: China. É mais certo que estarem aqui a ler isto a esta hora.

Se a uma amostra ao acaso, juntarmos trinta, quarenta, quinhentos e trinta e cinco amostras – há gente que tem muito tempo livre para estes estudos – voilá, aparecerá em 99.99999573% dos casos a confirmação da proveniência chinesa.

Isto, para mim, é mais relevante que o domínio económico do mundo, a captura da lua, ou que a construção da Barragem das Três gargantas.

Nem Grande Muralha, nem Jogos Olímpicos de 2008, nem mórbida Praça de Tian na-men, nem pilinhas minúsculas; era para aqui é que devia apontar o foco de atracção turística da República Popular – olá se é! – da China:

来美、你的孩子们带来了玩具土地(以我们几个与你我们给予他们善意脂肪)
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traduzido:

«Venha até nós, traga as suas criancinhas ao País dos brinquedos (e se puder leve umas quantas das nossas, que a gente oferecemos de boa vontade)»


(Pronto senhores do comité chinês, por esta não têm de pagar nada. Aproveitem e gastem lá os Yuan Renminbis em fatinhos com golas que se vejam, que esses são assim a dar para o ridículo)


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O sexo dos anjos (parte II – a parte de baixo)

É então com o distanciamento necessário para dar espaço à reflexão científica que esta segunda parte da explicação vê a luz das letras. Depois disto, o que se impõe saber é o que impede os anjos de se darem à rebaldaria pecaminosa, ou seja, não terem sexo (actividade), não é?

A explicação, mais uma vez, é simples e óbvia. Só não entra pelos olhos adentro porque magoaria mais que um mísero mosquito desvairado.

O busílis está nas asas.

Como é do domínio público – com excepção para os cristãos devotos – tudo se resume a duas formas de efectivar a chavasquice: ou os parceiros estão de frente um para o outro; ou um deles está de costas. E nem o kamasutra, sofásutra, mesasutra, ou outro qualquer sutra de posições aparvalhadas - que dizem haver por aí – o poderá desmentir. É verdade que há variações mais ou menos arriscadas, dizem, mas tudo se reduz a isto.

Sendo assim, basta um pouco de imaginação visual - Eu disse um pouco, não vale porem-se aí a fantasiar com os pobres anjos a praticarem a javardeira desbragada – para perceber que se torna impraticável agarrar alguém com asas, de frente, sem lhe magoar os ossinhos da tal apêndice (só mesmo quem nunca tentou violar uma avestruz poderá equacionar tal possibilidade). Isto é, como não haveria alcance de braços para um abraço completo – que Eu saiba, os anjos não têm braços XXL - invariavelmente o agarranço recairia sobre as asas. Ora, é bom de ver que no fim do desbravar do corpo alheio iriam haver penas por todo o lado – como se soltássemos um miúdo travesso, de canivete suíço em riste, na secção de almofadas do IKEA - e dores extra por tudo o que era asa. Claro que poderiam fazê-lo de bracinhos abertos, mas convém não esquecer que os anjos vivem no céu, onde não há paredes nem outro tipo de limites físicos, o que quer dizer que, na ausência de uma forte seguradela, ao primeiro movimento entusiasmado o mais leve dos parceiros sairia disparado.

Se um deles estiver de costas a coisa ainda se torna mais desconfortável, sobretudo para o que fica do lado das costas (mais uma vez, a tentativa de violação da tal avestruz, mas desta feita à traição, ajudará bastante a perceber o porquê). É que não seria nada prático estar ali a tentar sexuar e levar com as asas nas angélicas fuças ao mesmo tempo. Nem um anjo, com toda a sua boa vontade e paciência, aguentava. Se dúvida houver, atentem aos pombinhos no acasalanço: é tão desagradável para o macho estar ali a aturar as asas da pomba no bico, que não só levanta a cabeça o mais que pode – arriscando a ruptura do côndilo occipital - como termina com aquela parvoeira logo num instante. Agora é só transportar para o domínio dos anjinhos, que não têm bico, é verdade, mas têm nariz e restante cara.

Corolário (e para acabar com isto de uma vez): se os anjos não bebem logo não vertem; e se os anjos não sexuam porque não é nada prático sexuar naquela condição; dá nisto - os anjos não têm sexo porque não precisam nem podem.

I rest my case

Também corre por aí que os anjos não têm costas (então onde penduram as asas? pergunto Eu) mas isso - e mantendo o contexto celestial – são contas de outro rosário...
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NR: para quem não notou, este texto tem o alto patrocínio dos senhores suecos dos móveis
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Tenham um fim-de-semana nas nuvens


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O pipi, esse maroto

Esta semana a minha filha anda a aprender o P na escola. Como ainda não sabe ler bem, costuma fazer os TPC ao pé de mim para que Eu lhe possa indicar o que é para fazer. Vai daí, a professora ontem mandou o seguinte exercício (para treinar os Ps, presumo):
“Lê e copia com letra manuscrita a seguinte frase: O PIPI PAPA PÃO. Desenha a situação”.

O PIPI PAPA PÃO...

Ao ler-lhe aquilo, ela olha para mim (com vontade de fazer uma pergunta que Eu não queria ouvir), Eu olho para ela (com vontade que ela não me fizesse uma pergunta que Eu não queria ouvir), ponho o dedo no caderno e digo «Faz, é fácil!» com tamanha determinação que ela percebeu que não eram admitidas dúvidas.

Acho que vou ter de rever os nomes que dou a certas partes do corpo feminino, sob pena de a ter de tirar da escola...


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As corzinhas do clima

Parece que o alerta amarelo acaba hoje. Eu não sei o que vocês acham, mas parece-me que esta coisa de atribuir coloração às ameaças climatéricas é assim a modos que pôr em cheque a masculinidade do clima. É um bocado provocador. Ainda se fossem cores másculas como vermelho escuro, vermelho sangue ou vermelho Glorioso; agora: amarelo, laranja, azul, verde...enfim. Só faltava virem com tonalidades de roxo, rosa ou lilás. Está-se mesmo a ver que isto é coisinha para irritar São Pedro “Ah ele é amarelinho? Então tomem lá com um dilúvio a ver se mudam essa porcaria para vermelho...” será este o pensamento do Santo ao ver as notícias.

Está certo que isto não é novo – quem não se lembra daqueles galinhos do tempo que enfeitavam cada “lar-doce-lar” nos anos oitentas – mas dantes sempre era uma coisa recatada, guardadinha no segredo da cozinha ou da sala (consoante o habitat do galinho). Ninguém vinha para a rua comentar a cor que o galináceo colorido dava para o dia. Agora, não. Agora, publicam essa informação em tudo o que é meio de comunicação social. Várias vezes!

Vamos lá a parar com isto, pá. Deixem lá o Tempo descansado na sua transparência, não o enfeitem com alertas cromatizados. Já nos chega as iras sazonais sem provocações desnecessárias.

Estes gajos, sempre a inventar...


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O meu Amigo

Faz lá para a noite 4 anos que eu vi nascer um novo amigo. Não são todas as noites que o Amor nos traz um filho, mas aquela trouxe.

É um amigo especial, este, acima de
tudo porque, mais que de outra pessoa qualquer, este amigo é meu. O meu Amigo.

É alguém que tem uma alma daquelas que nunca caberá no corpo: mexida, alegre, contagiante, enorme, que me consegue surpreender a cada voz quando esconde a carita e diz «Não me vês os olhos, não vês a outra parte minha» ou se vira para a irmã «olha, M., as estrelas disseram-te bom dia, como não respondeste, elas esconderam-se (na luz do sol)».

É assim, o meu Amigo. Aliás «amigo não, Amigão» como ele insiste sempre em rectificar com um abraço sufocante.

(por tua causa, isto hoje fica assim. Parabéns Amigo)

O sexo dos anjos (parte I)

Numa destas salas que foram feitas para estendermos a espera, à minha frente um menino sardento puxa da voz e pergunta ao seu progenitor «oh pai, porque é que se diz que os anjos não têm sexo?» (talvez entusiasmado por um dos textos da revista “Maria” que segurava nas mãozinhas também pintalgadas).

A resposta veio sob a forma de um calduço na nuca que fez o menino aperceber-se que a distância que vai da testa aos joelhos não é assim tão grande quando estamos sentados.

Esta situação, para além de uma demonstração de violência gratuita para com crianças com sardas quase dispensável, revela o desespero de alguém que nitidamente não sabe o que haveria de responder.

É assunto tabu, discutir o sexo dos anjos, «nem vale a pena falar mais, é como discutir o sexo dos anjos» diz-se quando já não se quer prolongar mais a conversa.

Pois bem, Eu já não posso com esta obscurantismo imposto, esta dúvida permanente, esta “desnoção” a que os coitados dos anjos estão sujeitos de cada vez que se fala deles. E daqui, deste teclado, lanço a explicação em auxílio de todos os pais de crianças com sardas e daqueles que estão a pensar gerar este tipo de miúdos.

Não é porque não queremos falar disso, ou simplesmente porque queremos, que os anjos não têm sexo. Não. Os anjos não têm sexo porque não podem. Como vou desmontar, trata-se de um pressuposto lógico de quem tem asas e vive no céu.

Antes de mais, a expressão “não ter sexo” bifurca numa dicotomia contextual: não ser sexuado ou não exercer funções sexuais. Ambos os casos estão interditos à seita dos anjos (é assim, quem os manda terem estudado para aquilo?)

Hoje vou abordar o primeiro caso, está bem? A outra parte da explicação aparecerá em separado, senão o texto é muito longo e corro o risco de perder os quatro leitores que ainda restam.

Como será fácil de perceber, os anjos não precisam de sexo para nada no que concerne à função purgatória do mesmo. Os anjos vivem no céu e no céu não há água, a que se acumula cai toda cá para baixo, como é fácil de ver nestes últimos dias. Devido aos custos de importação e à elevada burocracia, também não há qualquer outro tipo de líquidos potáveis. Deus ainda pensou em falar com o sr. Sousa Cintra para abrir por lá uma cervejeira, mas ao preço a que estão os transportes para o céu nem Um nem outro foram nisso. O céu ficou como estava e a fábrica veio primeiro para Santarém e agora está a preparar-se para ir para o inferno, que fica mais em conta já que é sempre a descer. Portando, se os anjos não bebem, também não despejam. E se não despejam não precisam de nenhuma peça anatómica para despejar (é a chamada evolução selectiva de que Darwin tanto falou até a morte o seleccionar a ele).

Por outro lado, mesmo que os anjos quisessem manter um sexozito por motivos estéticos (?) não era lá coisa que ficasse muito bem com asas. Não me parece assim o emparelhamento mais adequado - um par de asasinhas e um par de testículos ou uma brecha a meio do corpo. Isto, para além de correrem o risco de estarem constantemente a meterem o dito nas nuvens ou vice-versa, consoante o género, e sabemos como Deus é exigente com o asseio das nuvens (as nuvens são a única coisa que há para comer no céu e se as brigadas de inspecção sanitária andam em força atrás dos restaurantes chineses, um dia destes também podem aparecer lá por cima de repente).

Também não se justifica terem um sexo (órgão) quando não podem ter sexo (actividade), mas isso é a tal explicação que virá depois...


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É água por todo lado…

Isto, mEus amigos, já não é mau tempo. Isto é tempo mau. Do ruim. Do malvado, mesmo. Uma pessoa dá-lhe uma certa oportunidade de se redimir, sai à rua de peito aberto, sem ressentimentos, sem gabardinas, kispos, sacos plásticos na cabeça ou qualquer outro dispositivo anti-molha, e o gajo chove-nos em cima e ainda nos entra pelas peúgas adentro quase até às truces...

Sacana!


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Desconforto

Deambulava Eu no mEu estado mais descansado, quando me entra pelas meninas dos olhos adentro a imagem de um gigantesco cartaz publicitário que anuncia “Tu e Eu – a nova novela da TVI”. Um súbito estado de estarrecimento gélido apoderou-se de mim de tal forma que ainda não consigo dobrar a pena esquerda.

Só a visão de “Eu” e “TVI” na mesma frase já chegava para me tumultuar os intestinos. Se a isso se juntar “novela”, dá-se uma mistura que me custa mais a engolir que um cocktail de coca-cola, mostarda e óleo de fígado de bacalhau, aquecido em banho-maria em caçarola de barro.

Mas quem é que estes gajos pensam que são para utilizarem o bom-nome de uma pessoa assim tão gratuitamente? É que Eu não sei quem é o Tu, mas sei bem quem sou, e Eu não me meto em novelas. Muito menos da TVI.

Sentindo-me assim tão violentado na honra de um nome construído à base da seriedade e credibilidade das ideias, só me resta fazer aquilo que hodiernamente se faz quando algo acontece que não nos agrada: meter uma providência cautelar. Vou meter uma providência cautelar. Ou melhor, vou-lhes meter a eles uma providência cautelar. Impressa em papel de alta gramagem e amarfanhada numa forma esférica o maior, o mais densa e o mais áspera possível.

É incrível como se pode usar assim o nome de alguém sem sequer informar primeiro. Estou indignado e preparado para lutar até às últimas consequências, ou seja, ou eles mudam o nome da novela – pode ser para “Tu e Tu”, “Tu e Ele”, “Tu e Nós”, ou o resto dos nomes e pronomes pessoais - ou temos aqui o desencadear de uma guerra judicial dez vezes mais agreste e complexa que o divórcio do casal Tallon. Ou então fica tudo como está e não se fala mais nisto, que até é o mais provável.



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A dimensão de um crime

Reparo que nos vários debates acerca da legitimidade, ou não, da penalização criminal aplicada à interrupção voluntária da gravidez (vulgo, aborto), uma das justificações apresentadas para se considerar crime essa interrupção voluntária, independentemente da altura em que é praticada, é que a vida da pessoa humana existe desde que se dá a entrada do espermatozóide no ovócito.

Agora pergunto Eu:

Poderá a masturbação masculina ser considerada meio-crime (já que “metade” da vida humana está a ser condenada à saída infrutífera, digamos assim)?

Se sim:

E se for a mulher a “dar uma mãozinha”? Afigura-se um caso de punição em conjunto? Será mais culpado o homem, que deixa, ou a mulher, que "leva a cabo" (expressão nunca tão bem aplicada)?

E em relação à ejaculação precoce, mas mesmo precoce (daquelas que acontecem antes da penetração propriamente feita), teremos aqui um caso de crime por negligência?

Guardem lá umas horitas do fim-de-semana - que se deseja dos bons - para pensar nisto.


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Assunto sério

Esta manhã fui despertado pela vontade de reflectir sobre um assunto sério. Estou um bocado farto destas abordagens à parte mais superficial da realidade. De certa forma, acho que a idade me impõe a responsabilidade de deixar algo que auxilie a orientação das gerações futuras neste mundo tão desfocado. Como tal, sinto que devo questionar a lógica da palavra “cocó”.

Não tem lógica! E esta é já a primeira conclusão que surge assim de chofre.

Posto isto, e como sei que o assunto merece uma abordagem mais justificativa, há que arregaçar as mangas da linguagem, e passar à explicação para que não restem dúvidas aos que, como Eu, não se limitam a aceitar afirmações assim tão polémicas sem perceberem o âmago das mesmas.

Primeiro, as palavras dissilábicas formadas a partir da repetição de duas consoantes iguais casadas com O têm um som pateta e descredibilizam o substantivo – pronunciem “popó” e “totó”, e reparem como ficam com um ar tolinho a fazê-lo, para além da sensação de desrespeito que se assoma no nosso espírito, perante a injustiça que estamos a fazer a palavras tão nobres como “automóvel” ou “puxinho” (bem, em relação a esta última tenho cá as minhas dúvidas…). Ora, Eu acho que este é um substantivo que ninguém quererá desrespeitar, dada a sua importância para cada um de nós e para toda uma Humanidade, desde os primórdios da fisiologia.

Segundo, se compararmos com “chichi” – a outra palavra “querida” inventada para nomenclar a restante necessidade de expelir resíduos internos – reparamos que esta tem um quê de onomatopaico que a legitima. Podemos mesmo associar “chichi” ao próprio silvo de saída do líquido dourado (chhhhhhh), e ficamos muito mais descansados com a existência da palavra. Agora, cocó? Bem, cocó não tem nada a ver. Eu, com o tempo que cá ando, não sou capaz de relacionar a fonia da palavra com a sonoridade da acção, em nenhum dos momentos que a definem. Mas isto sou Eu, que já deixei de espionar pessoas na sanita há cerca de quatro meses.

Finalmente, se queriam mesmo utilizar C e vogais, então utilizassem qualquer uma das outras. Todas menos o O.

Se fosse A teríamos “cacá”, que serviria de abreviatura à localização da acção, como quem diz ao bebé (e presumo que é para isso que estes termos foram inventados, senão ainda são mais absurdos) o local indicado para o fazer “Faz cacá (cá cá), bebé”. Esta escolha tem ainda a vantagem de ser próxima a “caca”, palavra já inventada para enunciar o produto final.

No caso do E – “cecé”, ou “quequé” mais correctamente – também tinha uma lógica de acção e pedagógica mais compreensível para a criança perceber do que se está a falar: “o bebé quer fazer, quer?” (como, normalmente, temos a tendência de comer os R quando falamos com os petizes, ficaria “o bebé qué fazê, qué (daí o quequé)?”.

Vamos ao I ? Então vamos lá. O caso do I é mais complexo, dado que “cici”, ou “quiqui”, iria assumir uma proximidade fonética com o “chichi”. Mesmo assim, seria mais legítimo que “cocó”. Segundo o mesmo exemplo da fala com o bebé, indicaríamos o local de depósito, tal como no caso do A, “Faz aqui, bebé. Aqui”. Ora, a repetição da palavra “aqui” resultaria facilmente na abreviatura “quiqui”.

O U é uma situação um tanto ou quanto mais delicada, dada a rudeza da sua legitimação, mas, ainda assim, não me furtarei à sua apresentação, já que o espírito de missão a isso me obriga. Ao ver o bebé incomodado, ou chegando a hora, podíamos dizer ao bebé “quer fazer cucu ?” Sim, é mesmo disso que se trata: fazer com o cu (desculpem, mas nestas coisas não há como fugir das palavras). “Fazer com-o-cu” soa mesmo a “fazer cucu”, não é? Pois é.

Contudo, na minha mente, mesmo mantendo a dicotomia das sílabas formadas a partir da repetição de uma consoante e de uma vogal, há soluções muito mais coerentes. Veja-se “fufu” (evocação ao cheiro “fufu, cheira mal”) “pupu” (som) ou “tatá” (“já está!”).

Acho que consegui o meu desiderato, e sinto-me muito mais aliviado.


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